Mídia e violência: o sangue escorre pela tela - Por Jaqueline Alencar

05/11/2014 20:02
 
Discuti o tema como membro debatedor em um Seminário de Comunicação na faculdade em que me formei em 2004, mas o assunto é sempre atual. É incrível percebermos como a violência permanece mantendo a audiência, a leitura e o acesso da imensa maioria dos veículos de comunicação.
 
Sempre relembro o debate quando acontecem casos polêmicos. Com a morte dos três jovens que se envolveram em um acidente com uma carreta bi-trem no último final de semana em Ariquemes, e em outros que vêm sendo noticiados pela mídia local e estadual, a retomada foi inevitável.

O fato de sábado está estampado em praticamente toda a mídia do estado, audiovisual, radiofônica, Internet e impresso, o que me levou a um verdadeiro flashback sobre o sangue que jorra nas telas e páginas dos diários de notícia no nosso dia-a-dia.
 
Não é preciso ser nenhum expert da comunicação para perceber que informações precisas, claras e concretas a respeito foram praticamente descartadas. No caso de alguns sites, apenas títulos chamativos e fotos. A preocupação da maioria ficou por conta de expor a violência do caso com detalhes minuciosos e perversos, que tem apenas como meta de chamar a atenção para atrair o público, elevar o índice de audiência, aumentar o número de acessos e... infelizmente, com raras exceções focadas no sentido de alerta.
 
Não é de hoje que a violência tem sido destaque em praticamente todos os veículos de comunicação. Mas a quem interessa tanta notícia desta natureza? Praticamente todos! Não se assuste, esta é a dura e crua realidade avaliada pelos profissionais da área de psicologia e segurança, que também participaram do nosso debate sobre o assunto junto com especialistas em comunicação. E creio que hoje, a conclusão não seria muito diferente.
 
Entre algumas das possíveis razões explanadas no Seminário estiveram a de crescermos sendo testemunhas de um mundo conturbado de fatos que tornam a violência cotidiana, à espetacularização da mídia do instinto de alguns seres humanos que a alimentam.
 
Mas mesmo sendo necessária a divulgação da informação, não podemos esquecer que é preciso ter cautela, pois a responsabilidade como comunicador, lembremos, é grande!
 
Elizabeth Rondelli, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) lembra que, “A mídia, quando se apropria, divulga e sensacionaliza a violência, a induzem para práticas referidas. E se a violência é linguagem forma de comunicar algo, a mídia, ao reportar os atos de violência, surge como ação amplificadora desta linguagem primeira, a da violência”.
 
O livro Showrnalismo - A Notícia Como Espetáculo, de José Arbex Jr, também trata sobre a sedução e emoção do observador da notícia como forma mais importante que informar e analisar. Ou seja, tudo isso é muito perigoso, e prova que a influência da mídia pode provocar o aumento da violência e da criminalidade.
 
Antes de participar do Seminário, além de outras pesquisas bibliográficas, assisti alguns filmes que tratam o tema, entre eles, e por três vezes, "Assassinos por Natureza”, dirigido por Oliver Stone que conta a história de um casal, que se uniu pelo desejo de amarem a violência. Mickey e Mallory matam algumas dezenas de pessoas em três semanas, mas sempre deixam alguém vivo para contar quem fez os crimes. Viram atração através da imprensa sensacionalista e o repórter Wayne Gale (Robert Downey Jr), os coloca no programa de televisão. Mesmo com a captura deles pela Polícia, a popularidade dos criminosos só aumenta, o que motiva a TV em transformar tudo em um grande circo.
 
A ideia neste contexto, é chamar a atenção sobre a forma como é abordado um fato que envolve violência, seja ela, de qual natureza for. Se o caso já é dramático, não há a necessidade de se criar um espetáculo para que as pessoas possam acessar a notícia, ler o jornal, ver a foto, ou ligar a TV para ouvir sobre o assunto.
 
Afinal, não adianta pedir desculpas à família, e ficar em frente à Câmera fazendo suposições ou comentários que venham a incriminar esta ou àquela parte. Devemos lembrar que isto cabe à polícia e não ao comunicador. E o mais importante: banalizar a violência, pode ser tão perigoso quanto exercê-la.

AUTOR: JAQUELINE ALENCAR

 

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