COLUNA Johan Konings - Identidade Cristã e Católica

11/02/2015 13:43
Quando, alguns anos atrás, publiquei meu livro ‘Ser cristão’, queria intitulá-lo, originalmente, ‘Ser cristão na igreja católica’, mas o editor achava que tal título não venderia bem... Depois, notei também que muitos leitores não perceberam minha afirmação de que o ser cristão é logicamente anterior ao ser católico. É-se católico dentro do cristianismo. O cristianismo é a tradição que vê a revelação de Deus em Jesus Cristo, enquanto o catolicismo e as diversas formas de protestantismo são ‘confissões’, digamos configurações do cristianismo. 

Normalmente se é cristão dentro de alguma confissão, católica ou outra. Ser católico é uma maneira definida de ser cristão, e ser cristão é uma maneira de se colocar diante de Deus, ao lado de outras maneiras – as outras religiões ou buscas do Transcendente que sejam sinceras.

Ora, o que me preocupa é a tendência à indefinição em nossa sociedade atual. Bem sei que definir-se é difícil, pode levar até uma vida inteira. Porém, é bem mais incômodo – para os outros e para si mesmo – ser indefinido, não definir-se. É melhor definir-se provisoriamente do que não definir-se. Lembro-me de uma nipo-brasileira engajada na pastoral e na ação social conscientizadora (no tempo dos militares!), com radicalidade quase matemática. Quando perguntei pelo segredo de sua admirável motivação, ela me respondeu: “Eu era budista. Vi que o caminho de Jesus é melhor. Então faço tudo que posso. No dia que descobrir coisa melhor, mudo”. Não mudou até hoje.

Voltando à identidade católica: para muitos católicos, ela é tradicional ou meramente cultural. Herdada. Nem sabem que com o Concílio Vaticano II, cinquenta anos atrás, as coisas mudaram. Não conhecem a ‘lógica’ da renovada liturgia dominical, concebida como continua formação do cristão mediante a leitura continuada dos evangelhos e a devida explicação na homilia. Infelizmente, houve retrocesso em relação ao espírito do Concílio: a ‘liturgia da Palavra’ foi ritualizada, os ‘leitores’ cumprem sua tarefa de mesmo modo mecânico. E das homilias nem falo...

Muitos católicos vêem a igreja como um mercado de sacramentos. Não têm consciência do caráter comunitário, não buscam aprofundamento espiritual ou crescimento ético. Consideram-se católicos por terem sido batizados e ter feito a primeira comunhão, tendo, portanto, direito a casamento cerimonioso e enterro ‘na igreja’. Mas será que eles são verdadeiros cristãos, pessoas que adotam como fonte inspiradora de sua vida a Jesus Cristo, suas palavras, seus gestos, seu amor e fidelidade que nos revelam como é Deus?

A consciência cristã dos católicos deixa a desejar. Contudo, para ser católico é preciso ser cristão, aderir ao evangelho de Jesus, portanto, ser ‘evangélico’ no sentido original da palavra. E a ‘empatia’ com o judeu Jesus de Nazaré supõe também certa assimilação daquilo que ele herdou do povo do qual ele nasceu. Por isso a Bíblia cristã contém o Antigo Testamento, ou seja, as Escrituras de Israel. Tudo isso faz parte da ‘opção cristã’, que os católicos concretizam na comunidade católica.

Insistir na identidade cristã e católica não é fechar as portas ao diálogo, nem ser intolerante. É, antes, uma condição para poder conversar, pois quem não se define não tem posição, não tem nada a contar. O próprio termo ‘católico’ remete à universalidade, ao diálogo.

Escrevo isso agora, porque o novo papa, Francisco, com seu jeito simples de abordar as pessoas e de dizer as coisas, talvez facilite aos católicos assumirem e expressarem sua identidade. Mas isso só será possível se os ‘quadros intermediários’ – desde os bispos até os catequistas, passando pelos meios de comunicação católicos – colaborarem para apresentar um cristianismo católico simples, direto e dialogal, voltado para o serviço aos irmãos por excelência de Jesus que são os pobres, sem se perderem naquilo que é secundário, ritualismos e devoçõezinhas de todos os tipos, arrecadações para fins escusos, tradiçõezinhas  que sufocam a grande Tradição viva da palavra e da prática de Jesus de Nazaré.

Simplificar a vida da igreja católica, ir direto ao assunto, com a radicalidade quase matemática da nipo-brasileira de que falei. Não muitas palavras, mas uma oração simples e reta, que nos coloque sem máscaras diante de Deus e de nossos irmãos. Ações, que, mesmo desajeitadas às vezes, sejam sinceras e eficazes por sua autenticidade.

Eis a identidade católica fundamental, que é também a de todos os cristãos: “Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amais uns aos outros” (João 13,35).

Johan Konings Johan Konings nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colegio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Foi professor de exegese bíblica na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre (1972-82) e na do Rio de Janeiro (1984). Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE - Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte, onde recebeu o título de Professor Emérito em 2011. Participou da fundação da Escola Superior Dom Helder Câmara.

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